O número de toninhas encontradas mortas nas praias de Santa Catarina neste ano chama a atenção de pesquisadores e reforça a preocupação com a conservação da espécie. Desde janeiro, 44 toninhas foram registradas na área monitorada no Estado, sendo que 43 já foram encontradas sem vida. Apenas um animal foi localizado vivo.
A toninha, de nome científico Pontoporia blainvillei, é um pequeno golfinho que vive em águas costeiras e está entre os cetáceos mais ameaçados da América do Sul. A espécie costuma ocupar regiões rasas, o que aumenta a exposição a atividades realizadas próximas à costa.
Um dos principais problemas enfrentados pelas toninhas é a captura acidental em redes de pesca, especialmente nas chamadas redes de emalhe. Os animais podem ficar presos e morrer por afogamento ou asfixia.
Os registros feitos pelo monitoramento mostram que o problema não é recente. Entre 2016 e 2024, somente em aproximadamente 82 quilômetros de praias monitoradas diariamente no litoral norte de Santa Catarina, foram contabilizadas 633 toninhas, sendo 630 encontradas mortas e apenas três vivas.
A situação é especialmente delicada porque a espécie apresenta baixa capacidade de recuperação populacional diante de níveis elevados de mortalidade. A toninha também ocorre no Brasil, Uruguai e Argentina e é considerada uma espécie de grande importância para a conservação dos ecossistemas costeiros.
Na região da Baía da Babitonga, no Norte de Santa Catarina, a preocupação é ainda maior. Estudos já apontaram uma população pequena e isolada de toninhas no local. Pesquisas realizadas anteriormente estimaram cerca de 50 indivíduos na baía.
Além do monitoramento das praias, pesquisadores vêm testando alternativas para diminuir a interação entre as toninhas e as redes de pesca. Uma dessas iniciativas utiliza alarmes acústicos instalados nos equipamentos de pesca, que emitem sinais capazes de afastar os animais das redes.
Em testes realizados com pescadores artesanais, a tecnologia apresentou resultados considerados promissores. Foram acompanhados 223 lances de pesca, com mais de 4,7 mil horas de registros acústicos. As análises indicaram redução da presença das toninhas próximas às redes equipadas com os dispositivos, sem prejuízo significativo para a quantidade, o peso ou o tamanho dos peixes capturados.
O monitoramento das praias é realizado pelo Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS), que acompanha animais marinhos em diferentes trechos do litoral. Em Santa Catarina e no Paraná, a execução do trabalho é coordenada pela Univali. O projeto integra uma área de monitoramento que também abrange setores dos litorais de São Paulo e do Rio de Janeiro.
A população também pode ajudar. Ao encontrar uma toninha ou outro animal marinho vivo ou morto na praia, a orientação é não tocar no animal e acionar as equipes de monitoramento, para que profissionais possam fazer o atendimento, identificar a espécie e registrar a ocorrência. Para Santa Catarina e Paraná, o contato informado pelo projeto é o 0800 642-3341.
Os registros são importantes não apenas para contabilizar as mortes, mas também para identificar possíveis causas e acompanhar a situação das populações ao longo do tempo. No caso das toninhas, cada ocorrência representa um alerta para uma espécie que já enfrenta forte pressão principalmente em razão da atividade pesqueira.
Imagem: Univali
