A entrada em vigor da nova rodada de tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros acende um sinal de alerta para a economia catarinense. Um estudo divulgado pela Federação das Indústrias de Santa Catarina (FIESC) aponta que os efeitos da segunda fase das medidas podem repetir os prejuízos registrados no primeiro ciclo de sobretaxas, afetando exportações, competitividade e geração de empregos no estado.
Segundo a entidade, Santa Catarina já deixou de criar cerca de 7,6 mil postos formais de trabalho durante a primeira fase das restrições comerciais. Agora, a expectativa é de que o novo pacote tarifário provoque impactos semelhantes, especialmente sobre os setores industriais com forte presença no mercado norte-americano.
Embora a tarifa nominal máxima prevista nesta nova etapa seja inferior à aplicada anteriormente, a FIESC alerta que isso não representa uma melhora efetiva para as empresas catarinenses. O principal motivo é que concorrentes internacionais do Brasil deverão enfrentar tarifas menores, reduzindo a competitividade dos produtos fabricados em Santa Catarina.
Os reflexos já foram sentidos nas exportações durante o primeiro tarifaço. Entre agosto de 2025 e fevereiro de 2026, as vendas catarinenses para os Estados Unidos caíram cerca de 38%, passando de uma média mensal de US$ 141 milhões para aproximadamente US$ 87 milhões. Com a possível adoção das novas sobretaxas, a expectativa é de que essa retração volte a se aproximar dos 40%.
O levantamento mostra ainda que mais de 500 produtos catarinenses perderão competitividade nesta nova fase das tarifas, enquanto outros segmentos poderão registrar algum ganho. No entanto, a avaliação da FIESC é de que o saldo permanece negativo, principalmente porque outros países exportadores terão condições mais favoráveis para disputar espaço no mercado norte-americano.
A preocupação é ainda maior em Santa Catarina devido ao perfil da pauta exportadora do estado. Enquanto cerca de um quarto das exportações brasileiras deverá ser diretamente afetado pelas novas medidas, no estado aproximadamente 56% dos embarques permanecem expostos às sobretaxas, em razão da forte participação da indústria de transformação.
Além do impacto econômico, o cenário também ganhou contornos diplomáticos. As tensões entre Brasil e Estados Unidos aumentaram após a investigação comercial aberta pelo governo norte-americano com base na chamada Seção 301, que questiona práticas brasileiras relacionadas ao comércio digital, ao sistema de pagamentos Pix e a políticas ambientais.
O governo brasileiro considera as alegações sem fundamento técnico e prepara uma série de medidas caso o tarifaço seja confirmado. Entre elas está a aplicação da Lei da Reciprocidade Econômica, que permitirá ao Brasil adotar tarifas equivalentes sobre produtos importados dos Estados Unidos. Paralelamente, o governo estuda contestar a decisão em instâncias internacionais e nos próprios tribunais norte-americanos, além de elaborar ações de apoio aos setores econômicos que possam sofrer maiores perdas.
A lista de produtos brasileiros que podem ser atingidos pelas novas tarifas inclui itens como açúcar bruto, tabaco, ferro-gusa, alumínio e molduras de madeira, segmentos que possuem relevância para a indústria nacional e para parte das exportações catarinenses.
