Setor discute mudanças no mercado global, avanço das importações e necessidade de acelerar produção e inovação
A indústria têxtil de Santa Catarina está diante de uma mudança significativa no ritmo de competição. O avanço da chamada ultra fast fashion, impulsionado principalmente pelas plataformas digitais e pela oferta cada vez maior de produtos importados, está obrigando as empresas a repensarem processos, estoques e estratégias de mercado.
O tema foi discutido nesta quinta-feira (13), durante reunião do Conselho da Indústria Têxtil, Confecção, Couro e Calçados da Federação das Indústrias de Santa Catarina (FIESC).
O mercado mundial de ultra fast fashion deve passar de US$ 62,75 bilhões para US$ 160,91 bilhões até 2033, mais que dobrando de tamanho no período.
Velocidade virou fator de competitividade
Durante o encontro, o presidente do conselho, César Döhler, destacou a pressão sobre a indústria provocada pelo crescimento das importações de roupas e pela facilidade de compra oferecida pelas plataformas digitais.
Para o setor, a resposta passa por investimentos em inovação e por uma atuação mais integrada entre empresas, fornecedores e demais segmentos da cadeia produtiva.
O presidente da Audaces, Matheus Fagundes, chamou atenção para a velocidade com que o mercado internacional passou a lançar novos produtos.
Segundo ele, a competição deixou de ser medida em ciclos de meses e passou a acontecer em questão de semanas ou até dias. Um dos exemplos apresentados durante a reunião mostra a diferença de escala: enquanto o mercado dos Estados Unidos lança aproximadamente 23 mil novos itens por ano, a China chega a 1,5 milhão.
Nesse cenário, tecnologias capazes de acelerar decisões e reduzir etapas da produção ganham espaço.
Inteligência artificial entra na estratégia
Entre as ferramentas apontadas pelo setor estão a inteligência artificial, digitalização de processos, análise de dados e redução de estoques.
A proposta é permitir que as empresas identifiquem mais rapidamente mudanças no comportamento do consumidor e consigam ajustar produção e oferta com maior agilidade.
Para a indústria, tecnologia não significa apenas automatizar máquinas. A utilização de dados pode ajudar desde o desenvolvimento de produtos até o planejamento da produção e da distribuição.
Importações aumentam pressão sobre indústria brasileira
O avanço dos produtos importados também aparece como um dos principais pontos de preocupação.
Durante a reunião, a Argentina foi citada como exemplo do impacto que a perda de competitividade da produção local pode provocar. Atualmente, aproximadamente 70% das roupas comercializadas no país são importadas.
A avaliação apresentada no encontro é de que a indústria brasileira precisa aumentar sua capacidade de competir no mercado internacional para evitar que produtos estrangeiros conquistem ainda mais espaço no mercado nacional.
Santa Catarina tem peso importante no setor
A discussão ganha relevância especial para Santa Catarina devido à força da indústria têxtil no Estado.
O segmento é responsável pelo maior número de empregos dentro da indústria catarinense e ocupa a segunda posição em quantidade de estabelecimentos industriais.
Em 2023, o setor concentrava 170.787 empregos formais, correspondentes a 18,9% de todos os postos de trabalho da indústria catarinense.
As exportações também representam uma parcela importante da atividade. Em 2024, o segmento têxtil catarinense movimentou aproximadamente US$ 288,6 milhões em vendas ao exterior.
Setor busca novas estratégias
Além da modernização tecnológica, representantes da indústria defendem investimentos em qualificação profissional, integração da cadeia produtiva, utilização estratégica de dados, diversificação dos mercados e maior aproximação com os consumidores.
A mudança no comportamento do mercado coloca pressão sobre empresas tradicionais, que precisam conciliar a capacidade produtiva construída ao longo dos anos com uma realidade em que novos produtos chegam às plataformas digitais em velocidade cada vez maior.
Para o setor, o desafio agora é transformar essa mudança no mercado em uma oportunidade para aumentar a produtividade, desenvolver novos produtos e preservar a competitividade da indústria catarinense.
Por: Renato Santos
Imagem: Reprodução
