O desempenho da indústria de transformação brasileira no segundo trimestre de 2026 acendeu um alerta para o setor produtivo. Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), os resultados reforçam um processo de perda de participação da indústria na economia e indicam dificuldades para os próximos meses.
Dados divulgados pelo IBGE mostram que o Produto Interno Bruto (PIB) da indústria de transformação caiu 0,4% entre abril e junho. Nos últimos quatro trimestres, a retração acumulada chega a 1,1%. Em 2025, o segmento já havia registrado queda de 0,2%.
Na avaliação da CNI, dois fatores pesam principalmente sobre o desempenho industrial: o nível elevado dos juros e o aumento das importações. A entidade destaca que, no primeiro semestre de 2026, a entrada de bens de consumo estrangeiros cresceu 16% na comparação com o mesmo período do ano anterior.
Para o diretor de Desenvolvimento Industrial da CNI, Mario Sergio Telles, o custo do crédito tem reduzido investimentos das empresas e limitado o consumo das famílias.
Segundo ele, os juros elevados dificultam novos investimentos, encarecem financiamentos e contribuem para o aumento do endividamento dos consumidores, reduzindo a procura por produtos industriais nacionais.
Outros setores industriais também registram queda
Além da indústria de transformação, outros segmentos apresentaram retração no segundo trimestre. A construção caiu 0,4%, enquanto as atividades de eletricidade, gás, água e esgoto tiveram redução de 1,1%.
O resultado geral da indústria só não foi negativo devido ao desempenho da indústria extrativa, que registrou crescimento de 3,4% no período.
Produtos importados ganham espaço no mercado
Levantamento do Ipea aponta que a demanda por produtos nacionais caiu 1,2% em 12 meses até maio de 2026. No mesmo período, a procura por produtos importados avançou 2,6%.
A CNI relaciona esse movimento à perda de competitividade da indústria brasileira, agravada pela redução do consumo das famílias, que caiu 0,4% no segundo trimestre.
Mesmo com aumento da renda das famílias, a entidade avalia que parte dos recursos tem sido direcionada para pagamento de dívidas, reduzindo o espaço para o consumo de bens industriais.
CNI prevê revisão de projeção para 2026
Diante do cenário atual, a Confederação Nacional da Indústria considera possível revisar a previsão de crescimento de 0,5% para a indústria de transformação em 2026, estimativa divulgada anteriormente.
A entidade também demonstra preocupação com medidas que, segundo a avaliação do setor, podem aumentar as incertezas para as empresas, como mudanças na jornada de trabalho, redução do Imposto de Importação para compras internacionais de até US$ 50 e regras relacionadas ao transporte de cargas.
Para a CNI, a redução dos juros é um passo positivo, mas ainda insuficiente diante do atual nível das taxas no país. A entidade defende uma agenda de competitividade para reduzir o chamado Custo Brasil e criar condições mais equilibradas de concorrência entre produtos nacionais e estrangeiros.
