A China vai aplicar, a partir desta quinta-feira (1º), uma tarifa adicional de 55% sobre as importações de carne bovina brasileira que ultrapassarem a cota estabelecida para o país. O limite anual, de cerca de 1,1 milhão de toneladas, foi atingido pelo Brasil nesta semana, segundo o Ministério do Comércio chinês.
A sobretaxa será acrescentada à tarifa de importação de 12% já existente. Com isso, os embarques que excederem a cota estarão sujeitos a uma carga tarifária total de 67%. A medida faz parte de uma política adotada por Pequim para proteger o setor pecuário chinês diante do aumento das importações de carne bovina. A salvaguarda vale para fornecedores de diferentes países, não apenas para o Brasil.
O Brasil é o maior exportador mundial de carne bovina e a China é um dos principais destinos do produto brasileiro. Por isso, o esgotamento da cota aumenta a pressão sobre frigoríficos e exportadores que pretendem manter o ritmo de embarques para o mercado chinês.
O governo brasileiro tenta encontrar alternativas para ampliar o volume destinado à China. Entre as possibilidades discutidas está o aproveitamento de cotas não utilizadas por outros países, como o Uruguai. No entanto, segundo informações do setor citadas na mídia internacional, Pequim ainda não autorizou o Brasil a utilizar esses volumes.
O governo chinês também deverá decidir, até o fim do ano, como ficará o sistema de cotas para 2027. A definição será importante para frigoríficos e produtores brasileiros que dependem do mercado chinês.
A regra não significa que toda a carne brasileira enviada à China passará a pagar 55% de sobretaxa. A tarifa adicional é aplicada somente às importações que excederem o limite estabelecido para o Brasil. Dentro da cota, permanece a tarifa de importação de 12%.
A mudança ocorre em um momento de forte dependência do mercado chinês para as exportações brasileiras de carne bovina. Segundo estimativa da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), as exportações totais brasileiras podem recuar 10% em 2026 na comparação com o ano anterior, em meio às restrições impostas pela China e por outros mercados.
COMO FICA O CONSUMIDOR BRASILEIRO?
Para o consumidor brasileiro, porém, essa cobrança não aparece diretamente no supermercado. A sobretaxa é paga na entrada do produto na China. O possível impacto no Brasil ocorre porque parte da carne que seria exportada para o mercado chinês poderá precisar encontrar outros destinos.
Uma das possibilidades é justamente o aumento da oferta no mercado interno. Se frigoríficos direcionarem uma parcela maior da produção para o Brasil, a maior disponibilidade de carne pode pressionar os preços para baixo e abrir espaço para promoções em determinados cortes. Mas o movimento contrário também é possível. Caso os frigoríficos reduzam a produção diante das dificuldades para exportar, a oferta interna pode diminuir. Nesse cenário, a pressão sobre os preços pode ser de alta.
Além disso, o Brasil pode tentar redirecionar a produção para outros mercados internacionais. Quanto maior for a capacidade de absorção desses compradores, menor tende a ser a quantidade de carne que permanece no mercado brasileiro. Por isso, a sobretaxa chinesa não significa que a carne ficará automaticamente mais barata ou mais cara no Brasil. O efeito sobre o consumidor dependerá principalmente de como frigoríficos, produtores e exportadores vão reorganizar as vendas nos próximos meses.
Outro ponto importante é que os 55% não representam um aumento de 55% no preço da carne para o brasileiro. A cobrança é uma tarifa de importação aplicada pela China ao produto que exceder a cota. O consumidor brasileiro não paga esse imposto. A China é um dos principais destinos da carne bovina brasileira, e qualquer mudança relevante nesse fluxo pode alterar a dinâmica de oferta, exportação e preços no mercado nacional.
Para quem está no supermercado ou no açougue, portanto, o principal indicador a acompanhar será o comportamento da oferta de carne no mercado brasileiro. Se mais produto ficar no país, pode haver pressão de baixa em alguns períodos. Se a produção for reduzida ou a maior parte for direcionada para outros mercados, o impacto pode ser diferente.
A sobretaxa chinesa, neste momento, abre uma nova disputa no mercado internacional da carne e pode acabar chegando ao bolso do consumidor brasileiro de forma indireta.
Por: Renato Santos
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