O número de brasileiros à espera de um transplante de córnea continua aumentando. Dados divulgados pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) mostram que 37.719 pacientes aguardavam pelo procedimento em setembro de 2026, um crescimento de 24% em relação a dezembro de 2025, quando a fila somava 32.639 pessoas.
Apesar do avanço da demanda, o Brasil registrou um desempenho histórico na realização desse tipo de cirurgia. Em 2025 foram realizados 17.790 transplantes de córnea, o maior número já contabilizado no país. Ainda assim, a quantidade de novos pacientes que ingressam na fila supera o volume de procedimentos realizados, fazendo com que a lista de espera continue aumentando.
O tempo médio para conseguir o transplante também aumentou. Atualmente, um paciente espera, em média, 370 dias pela cirurgia, mais que o dobro do registrado há dez anos, quando o prazo médio era de 174 dias.
Santa Catarina tem uma das menores filas do país
Em Santa Catarina, o cenário é mais favorável. No fim de 2025, 578 pessoas aguardavam por um transplante de córnea no Estado, com tempo médio de espera de aproximadamente 164 dias, índice muito inferior à média nacional.
O desempenho catarinense coloca o Estado entre os que apresentam maior agilidade na realização dos procedimentos, resultado atribuído à organização da rede de captação, distribuição dos tecidos e realização das cirurgias.
Desafios para reduzir a fila
Na avaliação do Conselho Brasileiro de Oftalmologia, diversos fatores dificultam a redução da fila nacional. Entre eles estão a defasagem dos valores pagos pelos procedimentos, os impactos provocados pela pandemia de Covid-19, que represou milhares de pacientes, e o aumento dos custos enfrentados pelos bancos de olhos, principalmente com materiais importados.
A entidade também aponta que novas exigências sanitárias e de controle de qualidade elevaram os custos para processamento e preservação das córneas, enquanto os repasses financeiros permanecem praticamente inalterados há cerca de uma década.
Diferenças entre os estados
O levantamento mostra grandes diferenças entre as unidades da Federação.
O Ceará aparece como referência nacional, realizando 1.371 transplantes em 2025 e encerrando o ano com apenas 93 pacientes na fila. O Mato Grosso também apresenta um dos menores números de pessoas aguardando o procedimento, com 37 pacientes.
Em contrapartida, o Rio de Janeiro enfrenta um dos cenários mais preocupantes. Mesmo tendo realizado 653 transplantes em 2025, o estado recebeu 1.720 novos pacientes, encerrando o ano com 4.760 pessoas na fila de espera.
São Paulo concentra o maior número absoluto de pacientes aguardando transplante, com 7.505 pessoas, seguido por Minas Gerais, com 4.532. Já Amapá e Roraima não registraram nenhum transplante de córnea durante 2025.
Mulheres e idosos são maioria na fila
O perfil dos pacientes revela que 56% da fila é composta por mulheres. Quase metade dos pacientes (47%) tem 65 anos ou mais, refletindo o envelhecimento da população e o aumento das doenças degenerativas da córnea.
Outro dado que preocupa os especialistas é o crescimento da fila entre crianças e adolescentes. Atualmente, 753 pacientes com menos de 18 anos aguardam um transplante de córnea no Brasil, número superior aos 616 registrados no fim de 2025.
Brasil mantém destaque internacional
Mesmo com o aumento da fila, o Conselho Brasileiro de Oftalmologia avalia que o Brasil continua entre os países com melhor desempenho na área de transplantes de córnea, apresentando resultados comparáveis aos de nações como Canadá, Austrália e alguns países europeus. Na América Latina, o país permanece como a principal referência nesse tipo de procedimento.
Os dados foram apresentados durante o 70º Congresso Brasileiro de Oftalmologia, realizado em Salvador, onde especialistas discutem estratégias para ampliar a oferta de transplantes e reduzir o tempo de espera dos pacientes em todo o país.
Por: Renato Santos
Imagem: Reprodução
