A intensificação do fenômeno El Niño nos próximos meses coloca o setor agropecuário de Santa Catarina diante de um período que exige atenção redobrada. A previsão da Epagri/Ciram indica que o fenômeno deverá ganhar força entre o fim do inverno e o início da primavera, com possibilidade de atingir intensidade muito forte entre setembro e outubro.
Para o Norte catarinense, onde a agricultura tem forte presença e movimenta milhares de famílias, o cenário merece atenção. Municípios como Massaranduba, Schroeder, Guaramirim e Corupá possuem áreas importantes de produção de arroz e banana, culturas que podem sofrer impactos de períodos prolongados de chuva, temporais, ventos fortes, granizo e alagamentos.
A Epagri/Ciram prevê chuva acima da média para Santa Catarina entre agosto e outubro. A primavera, que normalmente já registra aumento dos volumes de precipitação, poderá ter maior frequência de tempestades severas, vendavais, granizo, enxurradas, inundações e deslizamentos.
Banana é uma das culturas mais expostas
A bananicultura é uma das principais forças do agronegócio no Norte de Santa Catarina. O Estado é o quarto maior produtor de banana do país e possui aproximadamente 3.800 bananicultores, em sua maioria produtores de pequenas propriedades familiares. A atividade representa cerca de 28% do Valor Bruto da Produção da fruticultura catarinense.
Na região, Corupá ocupa posição de destaque nacional. O município é reconhecido pela produção de banana e, junto com áreas de Jaraguá do Sul e Schroeder, integra uma importante região produtora.
A fruta também possui um diferencial reconhecido pela Indicação Geográfica, relacionada às características de produção e qualidade da banana da região.
O problema é que os bananais são particularmente vulneráveis aos eventos climáticos extremos. Ventos fortes podem derrubar plantas e comprometer cachos, enquanto o excesso de chuva pode prejudicar o solo, aumentar problemas fitossanitários e dificultar o acesso às propriedades e o transporte da produção.
Um exemplo da dimensão desse risco ocorreu durante o ciclone-bomba de 2020. Segundo estudo da Epagri, o evento atingiu mais de 13 mil hectares de bananais no Norte catarinense e provocou perdas estimadas em mais de 315 mil toneladas da fruta, com prejuízos econômicos diretos superiores a R$ 205 milhões.
Isso não significa que o El Niño vá necessariamente repetir um evento dessa magnitude, mas mostra como temporais associados a sistemas meteorológicos intensos podem provocar impactos expressivos sobre a cadeia produtiva.
Excesso de chuva também preocupa produtores de arroz

A outra grande força agrícola da região é a rizicultura. Massaranduba, conhecida pela tradição na produção de arroz, alcançou aproximadamente 49,9 mil toneladas na safra 2025/2026, a sétima maior produção entre os municípios catarinenses.
O arroz irrigado é adaptado ao cultivo em áreas de várzea, mas isso não significa que esteja livre dos efeitos de eventos extremos. Chuvas muito intensas podem provocar alagamentos fora do controle do sistema de irrigação, dificuldades de manejo, erosão, problemas de acesso às lavouras e perdas na colheita.
No caso das áreas de arroz, o momento em que a chuva ocorre também é determinante. Volumes elevados durante fases específicas do desenvolvimento da cultura ou próximos à colheita podem aumentar os prejuízos e dificultar as operações no campo.
Agricultura terá de acompanhar o clima de perto
A Epagri/Ciram destaca que o El Niño deixa o ambiente de Santa Catarina mais favorável a períodos chuvosos e a episódios de tempestades intensas. Para agosto, setembro e outubro, a previsão é de precipitação acima da média e temperaturas também acima da média climatológica.
Para o produtor rural, o desafio será acompanhar não apenas a quantidade total de chuva, mas principalmente a distribuição dos volumes e a ocorrência de eventos extremos.
No caso da banana, medidas relacionadas ao manejo do solo, drenagem, proteção das áreas produtivas e acompanhamento fitossanitário podem ajudar a reduzir os impactos. A própria Epagri destaca a importância de estratégias para aumentar a resiliência dos bananais diante das mudanças no regime de chuvas e dos eventos climáticos extremos.
No arroz, o planejamento da irrigação, a manutenção da infraestrutura das lavouras e o acompanhamento das condições meteorológicas são fundamentais para reduzir riscos.
Impacto vai além da propriedade rural
Os efeitos de uma eventual perda agrícola não ficam restritos ao produtor. Banana e arroz movimentam uma extensa cadeia econômica, que envolve transporte, armazenagem, beneficiamento, comércio, cooperativas, assistência técnica, manutenção de máquinas, embalagens e mão de obra.
Por isso, uma quebra significativa na produção pode atingir diferentes setores da economia regional.
A expectativa, neste momento, não é de perdas generalizadas, mas de maior risco climático. A Epagri/Ciram reforça que o El Niño já está configurado e que a tendência é de intensificação nos próximos meses, com possibilidade de permanência do fenômeno até o outono de 2027.
Para os produtores de Massaranduba, Schroeder, Guaramirim, Corupá e demais municípios do Norte catarinense, a recomendação é acompanhar as previsões e os avisos meteorológicos, antecipar medidas de proteção sempre que possível e manter atenção especial durante os períodos de maior instabilidade.
O campo entra, assim, em uma primavera que promete ser mais quente, úmida e sujeita a extremos — um cenário que reforça a importância da tecnologia, do planejamento e do monitoramento climático para proteger uma das principais bases econômicas da região.
Por: Renato Santos
Imagem: Reprodução Epagri/IA RBN
