Por: Alison Correa
Santa Catarina iniciou 2026 sob um cenário alarmante de violência de gênero. Em apenas dez dias, quatro mulheres foram assassinadas em crimes classificados como feminicídio, todos cometidos por homens do convívio direto das vítimas. Os casos ocorreram em diferentes regiões do estado e revelam padrões recorrentes de agressão, ameaça prévia e falhas na contenção da violência doméstica.
O número já supera todo o mês de janeiro de 2025, quando três feminicídios foram registrados, conforme dados do Observatório de Violência contra a Mulher em Santa Catarina (OVM-SC). Em dois dos crimes, os suspeitos morreram após as ações. Em outro, o autor segue foragido.
Mulher morta ao tentar impedir agressão na Grande Florianópolis
A primeira vítima de 2026 foi Stephanny Cassiana da Silva, de 40 anos, assassinada na madrugada de 1º de janeiro, em São João Batista, na Grande Florianópolis. Ela foi atacada com golpes de faca após intervir em uma discussão violenta envolvendo o companheiro de uma amiga.
Stephanny comemorava a virada do ano na residência da amiga quando o homem, embriagado, iniciou uma discussão. Diante da escalada de agressividade, a vítima tentou proteger a amiga e a filha dela, levando ambas para fora da casa. Ao permanecer no interior do imóvel com o agressor, acabou sendo esfaqueada diversas vezes.
Mesmo socorrida, Stephanny não resistiu aos ferimentos. O suspeito fugiu do local e, até o momento, não foi localizado pelas autoridades.
Jovem morta pelo ex-companheiro em Chapecó
O segundo feminicídio ocorreu em Chapecó, no Oeste catarinense. Marivane Fátima Sampaio, de 25 anos, foi espancada até a morte dentro de casa pelo ex-companheiro, que não aceitava o término do relacionamento.
Antes do crime, a jovem havia tomado medidas para se proteger: trocou fechaduras, solicitou medida protetiva e registrou boletins de ocorrência. Mensagens com ameaças explícitas enviadas pelo agressor constavam nos registros policiais.
Após o ataque, Marivane chegou a ser socorrida, mas morreu no hospital. O autor do crime fugiu, foi localizado pela polícia e, ao ser cercado, tentou tirar a própria vida. Ele chegou a ser encaminhado para atendimento médico, mas morreu horas depois.
Mãe e filha assassinadas dentro de casa no Oeste
O caso mais recente e chocante aconteceu em União do Oeste, onde Juvilete Kviatkoski, de 37 anos, e a filha Mariana Vitória Cuochinski, de 15, foram mortas a facadas dentro da própria residência.
A Polícia Militar foi acionada após denúncia de violência doméstica. Quando os agentes chegaram, a adolescente já havia sido encaminhada ao hospital, mas não resistiu. A mãe foi encontrada sem vida no local.
O principal suspeito era o marido de Juvilete e pai da adolescente. Durante a abordagem policial, ele reagiu e acabou sendo morto. A tragédia abalou profundamente o município, que decretou luto oficial. Juvilete era professora e atuava como catequista, sendo bastante conhecida na comunidade.
Crescimento dos casos preocupa autoridades
Dados do Tribunal de Justiça de Santa Catarina apontam aumento expressivo nos julgamentos relacionados a feminicídio em 2025. Apenas nos sete primeiros meses do ano passado, mais de uma centena de casos foram analisados, uma média próxima de quatro por semana.
No mesmo período, quase 18,4 mil medidas protetivas foram concedidas no estado, o equivalente a cerca de 87 por dia. Ainda assim, os números de assassinatos seguem elevados.Enquanto o OVM-SC contabilizou 48 feminicídios em 2025, dados do Mapa Nacional da Violência de Gênero, elaborado pelo Senado Federal, apontam um número muito superior, colocando Santa Catarina entre os estados com maior incidência desse tipo de crime no país.
Os quatro feminicídios registrados nos primeiros dias de 2026 reforçam o alerta sobre a urgência de políticas públicas mais eficazes, resposta rápida às denúncias e fortalecimento da rede de proteção às mulheres em situação de violência.

